MARTA

MARTA
O ADEUS PRECOCE DA MINHA ESTRELA MAIOR
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

4 FEVEREIRO 2011 - 16 ANOS DEPOIS

MARTA, EM DEZº DE 1994, FALTAVA UM MÊS PARA FAZER OS 21 ANOS
ÚLTIMA FOTO DA MARTA
Como naquele sábado de 4 de Fevereiro de 1995, também hoje o dia está radioso. Está frio, mas o sol e o azul intenso do céu convidam-nos para um passeio... mas lá fora faz frio, muito frio, e por isso apetece ficar resguardada sentada à camilia ao calor reconfortante da braseira.
Faz hoje, 16 anos que tu partiste.
Sinto-me nervosa, não o quero demonstrar, mas estou impaciente com tudo e com todos.
A avó Amélia já aqui veio,com os olhos marejados de lágrimas, com o seu ar muito condoído, dar-me um beijo, um beijo especial de conforto. Eram cerca das 11 horas da manhã, a hora terrível em que tu começaste a tua jornada para a eternidade...
Procuro parecer forte, pois como não choro, deve parecer a quem me vê, que já superei a tua partida. Engano!!! grande engano. Na verdade as lágrimas secaram, mas o aperto no "buraco" que existe no meu peito, desde o dia da tua partida, esse "buraco, dá-me sinal... é um aperto enorme, uma necessidade de suspirar forte, para que o ar entre para que não desfaleça.
A Rita conseguiu escrever um texto lindo, sobre ti (como ela escreve bem!) no blog dela. Fui lê-lo e não resisti a colocá-lo aqui no blog.
Suspiro... fundo... forte... a boca fechada, o ar entra-me pelas narinas e vai "alimentar" a ferida que está em carne viva, dentro do meu peito. 
É mais um dia difícil... é mais um dia de busca de recordações que se baralham, se entrecruzam na minha cabeça...
Os pais que têm filhos a viver no estrangeiro, e que estão anos e anos sem os ver, sabem que eles estão lá, ali, algures no Mundo... devem ter muitas saudades, mas sabem que algum dia, essa saudade acabará, porque  um dia o seu filho chegará...
Eu e muitas mães como eu, sabemos que os nossos filhos partiram para a eternidade e que nunca mais os poderemos abraçar, acarinhar, beijar...
A avó Amélia esteve aqui a visitar-me, está triste... está muito nostálgica, recorda muito os acontecimentos do passado, tem 83 anos mas está muito lúcida; agora já anoiteceu e foi para casa dela, onde está o avô Vitalino sentado à braseira, a ver televisão, com os seus 88 anos, também com uma lucidez invejável. Sofreram e sofrem com a tua partida, deixaste muitas saudades em todos nós...

MATANÇA DO PORCO EM AMARELEJA

28 DE JANEIRO 1995
Durante a semana que passou, falei ao telefone todos os dias com a Marta. 
Estava combinado fazer-se a matança do porco, em Amareleja, no fim de semana, dia 28. 
Quando falávamos ao telefone, a Marta insistia comigo para que eu fosse com o pai à matança, pois ela também iria lá ter. Eu dizia-lhe que não ia, pois não gostava de matanças e que sempre me fizera muita impressão ver tanta carne. A Marta voltava a insistir e eu voltava a dizer-lhe que não ia. Hoje, tenho pena  por não lhe ter feito a vontade, ainda ouço a sua voz ao telefone, muito meiga e doce, pedindo-me para que eu fosse.
Não fui.
A Marta chegou sábado a Amareleja, vinha bem-disposta e de boa saúde. Ajudou na matança, trabalhou imenso, e esteve sempre muito bem, com toda a sua genica e força.
AVÔ VITALINO E MARTA
O avô Vitalino também lá estava e a imagem, que guarda na sua memória, é a da Marta a correr pelo quintal fora, com os cabelos compridos levados pelo vento, para ir telefonar ao matanceiro, pois este estava a demorar-se. 
A Marta sempre foi uma pessoa muito activa, sempre pronta ajudar e a resolver as situações mais diversas que se deparavam. 
Depois do jantar, fez um chá de limão para o avô Vitalino beber, pois este queixou-se que se sentia constipado e ela foi logo, muito resoluta, fazer-lhe um chá. 
ANDRÉ E RODRIGO
SERRA DE SOUSEL 1 DEZEMBRO 1994
Depois ajudou o Rodriguinho nos trabalhos da escola e brincou com o André, sempre teve muita paciência para com os primos e adorava-os.
Falei-lhe nessa noite para a Amareleja, estava bem disposta e pensava ir na camioneta de Domingo das oito horas da manhã para Beja, pois tinha que aproveitar para estudar e descansar um pouco.

MARTA - FUMADORA

MARTA - FESTA DA ESCOLA D. DINIS - PAIÃ
12  DEZEMBRO 1990
 Soube, mais tarde, pela Rita e pelo Paulo, que a Marta fumava bastante, desde muito nova. 
Durante todo este tempo, ela conseguiu esconder-nos o hábito de fumar! O que mais me admira é que ela e a Rita nos reprovavam imenso quando eu e o pai fumávamos, sentiam-se muito incomodadas com o fumo!
Calculo o motivo por que a Marta escondia de mim o hábito de fumar, tem a ver com uma discussão que nós tivemos quando ela frequentava o 8º ano e era muito amiga da Clara.
Um dia, já ela estava deitada, pronta para dormir, precisei de uma esferográfica e como não encontrasse nenhuma, fui à sua pasta da escola buscar uma, aí encontrei um maço de cigarros e um isqueiro.
Fiquei desesperada! Ela era muito nova para começar a fumar! Perguntei-lhe se ela fumava e desde há quanto tempo? Disse-me que não, que os cigarros eram da Clara, que esta os deixava na mala dela, para que a mãe não soubesse. Depois de muito conversarmos sobre o vício do tabaco e outros vícios, fiquei mais descansada, mas não muito convencida!
No dia seguinte, perguntei à Clara de quem eram os cigarros e esta disse-me que eram dela, que os dava à Marta para guardar todos os dias, antes de ir para casa. Repeti à Clara toda a conversa sobre os malefícios do tabaco e acreditei nelas. A Marta nunca chegava a casa a cheirar a tabaco e por isso comecei a acreditar que a discussão tinha dado os seus frutos!
Afinal, como andei enganada estes anos todos! Nunca vi a Marta fumar, e algumas vezes conversávamos sobre os perigos do tabaco e ela concordava comigo. Este episódio vem confirmar uma característica do temperamento da Marta. Como me tinha dito que não fumava, escondeu-o sempre de mim, pois ela sabia que me estava a "omitir" uma coisa que me havia garantido não fazer.
Ela sabia que depois de crescida, podia dizer-me que fumava e que eu iria respeitar a sua decisão. Há certas atitudes do ser humano que nos deixam desconcertados, esta é uma delas! Porquê esconder um vício durante tantos anos?
Quando mostrei a minha indignação à sua amiga Patrícia Lança, dizendo que não percebia a razão da atitude da Marta, ela contou-me, que a Marta sempre me quis esconder que fumava. Então, todos os dias, quando o comboio se começava a aproximar da estação de Massamá, ela seguia um autêntico ritual. Tinha uma bolsinha de pano para um penso higiénico, que eu lhe comprara, para usar na mala, para uma emergência. Aí, junto ao penso, colocava o maço de cigarros e o isqueiro. Trazia sempre um frasquinho de perfume, e colocava umas gotinhas atrás das orelhas e no pescoço Depois metia na boca um bocadinho de pastilha elástica, para quando chegasse a casa ainda viesse a mastigar e depois chegava-se perto da Patrícia ou da Aires e perguntava-lhes: - “ Cheiro bem? Não cheiro a nada, pois não?” e  quando acabava de fazer tudo isto, o comboio parava na estação. Elas achavam imensa graça a tudo aquilo e fartavam-se de rir. Para elas era engraçadíssimo a atitude repetida e constante da Marta, que não havia um dia que não a realizasse!!!

FIM...

MARTA 1992  - 1º ANO EM BEJA

O mês de Janeiro de 1995 não trouxe nada de bom à Marta. No dia 6 de Janeiro ela escreve na agenda : " Fim!".
Nesse fim de semana, ela veio a casa e disse-nos que estava tudo acabado com o Paulo, vinha muito, muito triste. As discussões entre ambos deixaram-na completamente destroçada e vinha com a ideia errada de que a relação tinha falhado por sua culpa.
O Paulo culpabilizava-a pelo falhanço da união, quando todos nós sabíamos quanto esforço despendeu a Marta para que tudo corresse bem! Falámos com ela, procurámos dar-lhe o nosso total apoio, tivemos longas e longas conversas e no Domingo, quando a fomos levar ao autocarro, para Beja, já nos pareceu mais confiante no futuro e nas suas capacidades para resistir a tão grande golpe.
O primeiro passo a dar seria sair da casa onde ambos moravam e procurar um quarto, para que se afastassem e ela não sofresse tanto, visto que o Paulo continuou na mesma casa. O sofrimento da Marta era enorme!... Estava em plena época de exames e não queria que estes fossem mais perturbados do que já tinham sido, ela tinha consciência de que precisava de estabilidade e tranquilidade para enfrentar os exames.
No dia 13 de Janeiro, fez a primeira frequência de Inglês e veio a casa passar o fim-de-semana. Continuava muito nervosa, tristíssima e nada a conseguia tirar daquela profundo desgosto. Conversámos muito. Ela sentia que tinha todo o nosso apoio, mas precisava de fazer a sua catarse para depois sair reforçada desta grande provação.
Naquela tarde de Domingo, a lareira estava acesa. A Marta sentada num dos bancos de pele, junto ao lume, estava muito triste e pensativa. Resolveu ir buscar um cigarro, e disse-me em jeito de desculpa:
"Mãe, tenho que fumar um cigarro para acalmar!..."
 Era a primeira vez que eu via a Marta a fumar!

PEDIDO DE CASAMENTO

No dia 12 de Maio de 94 escreve:

                          "12 de Maio
MARTA E AVÓ AMÉLIA NO DIA DO PEDIDO
Hoje foi um dia muito importante para mim.
O Paulo pediu-me em casamento aos meus pais, não marcámos data, mas se tudo correr bem daqui a um ano ou menos vamo-nos casar.
O Paulo fez tudo como manda a "praxe", pediu ao Zé Maria e à Paula para irem a minha casa beber café, depois de um pouco de conversa o Zé Maria fez o comunicado.
O meu pai ficou muito admirado, pois nem ele nem a minha mãe desconfiavam de alguma coisa. Só a minha avó Amélia estava um pouco desconfiada, ela ficou muito emocionada. Penso que os meus pais ficaram contentes, mas não demonstraram muito. O meu pai como era de esperar começou logo com os seus pessimismos, a minha mãe reagiu como eu esperava.
Foi um dia muito feliz, mas muito emocionante para mim.
A Paula estava muito feliz.
E eu e o Paulo também gostamos de nos tratar por "noivos".
A Paula e o Zé Maria foram muito simpáticos.
Espero que eu e o Paulo sejamos muito felizes."

O pedido de casamento da Marta apanhou-nos de surpresa. Calculávamos que um dia eles pensariam em casar-se, mas como já viviam juntos, sem nos terem perguntado nada, achávamos que não haveria pedido de casamento.
O Paulo andava muito entusiasmado em explorar uma propriedade do pai dele, localizada perto de Beja, por isso, decidiram pedir um subsídio ao Ministério da Agricultura para plantar sobreiros e azinheiras. A Marta fazia parte da "sociedade", como jovem estudante da Escola Superior Agrária e era também responsável pelos empréstimos ao Ifadap. Quando ela me disse que o Paulo queria vir a nossa casa, com a mãe e o Zé Maria, eu pensei que seria por causa do empréstimo, mas não deixei de ficar um pouco desconfiada.
Nesse dia, a Marta tinha uma consulta de estomatologia na Dr.ª Armanda, por isso, o Zé veio mais cedo do Banco, para a levar a Oeiras. Como esteve cerca de duas horas para desvitalizar um ou dois dentes, quando chegou aqui a casa, vinha muito mal disposta, muito branca e cheia de dores de dentes. Ela estava nervosa e preocupada, pois sabia que o Paulo e a mãe apareceriam dentro de pouco tempo. Deitou-se no sofá e o aspecto dela era de quem estava com muitas dores. Eu estava muito preocupada com a Marta, sempre sofreu com dores de dentes e quando devia estar bem, com boa disposição, estava mesmo doente.
MARTA
 DIA DO PEDIDO DE CASAMENTO
Pedi à minha mãe que fizesse um bolo para o café. Eu andava a dar assistência à Marta e a organizar as coisas. Quando fomos tirar o bolo da forma, este começou a baixar, a baixar e a minguar  e ficou com um aspecto horrível. A minha mãe disse que nunca tinha feito um bolo tão ruim!
Qualquer coisa superior a mim, me fazia sentir angustiada e nervosa, eu não percebia o que se estava a passar comigo, mas eu pressentia alguma coisa de ruim, algo que iria empecilhar a felicidade da minha Marta, por isso, sentia-me apreensiva.
 Olhava a Marta, via-a muito mal encarada, mas feliz. Porque estaria eu assim?
Hoje sei a razão e por isso fico muito angustiada e muito triste.
O Paulo ofereceu-lhe um anel de noivado, que a Marta nunca mais tirou do dedo. Ela adorava aquele anel e toda a sua simbologia.

FESTA DOS 20 ANOS DA MARTA

FESTA DOS 20 ANOS
Marta fazia 20 anos no dia 21 de Janeiro de 1994 que  calhou numa sexta-feira. Então resolvi fazer-lhe uma grande festa de aniversário, no sábado, para festejarmos os seus anos com toda a família. Convidei a Paula, mãe do Paulo e o marido da mãe do Paulo, para que estivessem connosco e assim nos ficássemos a conhecer. 
Foi uma festa muito bonita. 
Todos estávamos muito bem dispostos e a Marta adorou aquele dia. Convivemos, brincámos e petiscámos como sempre acontece nas festas familiares.
A Marta teve muitas prendas e recebeu muitos telefonemas de parabéns; estava muito feliz!...
O ano de 1994 foi pródigo em acontecimentos importantes para a felicidade da Marta. Escreveu na Agenda:
                   "21 Jan. 94
 Fiz 20 anos, fui logo de manhã para casa da mãe do Paulo para estudar um pouco porque o Paulo tinha de ir trabalhar. Depois a Paula ( era professora do ensino secundário) chegou, e eu e ela fomos comprar o almoço para fazermos um almoço especial. O Zé veio almoçar connosco, mas o Paulo não pôde aparecer.
A Paula ofereceu-me uma caneta, uma camisola de lã e um soutien, tudo muito bonito, ela foi incrível comigo - não só pelas prenda, mas também  pela companhia e atenção que teve comigo.
Depois,  fomos à casa dos avós do Paulo que foram muito simpáticos e me ofereceram uma camisola de lã também muito bonita. Às 7 h 30m eu e o Paulo fomos ter com os meus pais e a Rita, para irmos jantar à Churrasqueira, foi muito agradável.
O Paulo foi para casa da mãe e eu fui para casa, recebi as prendas dos meus pais e dormi, para no dia seguinte acordar cedo para preparar a festa.
A minha mãe preparou uma festa muito agradável.
A minha mãe teve imenso trabalho, fez imensa coisa, eu pedi-lhe para me fazer um bolo de anos em forma de coelho para recordar os velhos tempos.
Deram-me muitas prendas e gostei de todas, mas a minha avó Amélia deu-me uma prenda que eu nunca vou esquecer, ofereceu-me o fio de ouro dela, eu adorei,  não pelo fio, mas pela intenção, ainda mais sabendo que  era um fio que ela tinha  há muitos anos!"

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O 25 DE ABRIL DE 1974


A Marta tinha três meses quando se deu a Revolução do 25 de Abril de 1974. A partir dessa data, o nosso país sofreu  grandes modificações políticas e sociais.
25 de Abril de 1974 - largo do Carmo
Tanto eu como o Zé éramos muito jovens e há muito que desejávamos essas mudanças no velho regime, por isso esperávamos que a Revolução do Movimento das Forças Armadas viesse a  transformar Portugal num país democrático, como na verdade veio a acontecer, onde todos os cidadãos pudessem participar na escolha dos governantes, onde não houvesse censura, nem polícia politica e sobretudo que acabasse com a guerra no Ultramar, a qual parecia nunca mais terminar.
           Vivíamos intensamente todas essas mudanças, necessárias para a libertação do  país de  40 anos de ditadura, mas como tínhamos as crianças muito pequenas não nos era possível uma participação mais activa.
1º de Maio de 1974
 Foi com enorme e grande entusiasmo que participei na grande manifestação do 1º de Maio de 1974. Fui ter com o tio Zé Varela e a Tia Maria Emília  à casa deles, na Praça de Londres e daí partimos para a manifestação. 
O Zé ficou com as crianças e os meus pais a verem pela televisão toda aquela  enorme multidão que  saiu da Alameda Afonso Henriques, subiu a Av. Almirante Reis para se dirigir ao estádio 1º de Maio, onde os principais dirigentes políticos puderam usar da palavra. Tudo era novo e apaixonante para quem nunca tinha podido expressar livremente as suas ideias.

NASCIMENTO

MARTA 3 SEMANAS

            Numa tarde fria de Inverno, pelas 16 horas, do dia 21 de Janeiro de 1974, nasceu a Marta na Clínica de S. Gabriel em Lisboa. Para vir ao mundo a Marta teve que lutar muito, pois tanto a gravidez como o parto foram bastante conturbados. Sinais constantes  de aborto, obrigaram-me a tratamentos constantes e a um repouso que me deixavam muito nervosa e ansiosa. Com sete meses de gravidez, voltei a ter sinal de aborto e por isso  tive que ter mais repouso, para ver se o bébé nascia na data prevista. Quando faltavam umas duas semanas, eu, o pai e a Rita resolvemos ir de malas e bagagens  para Benfica, para casa da avó Amélia e do avô Vitalino para ficarmos mais perto da clínica.
Entrei na Clínica dia 20 por volta das 10 horas da noite. Sentia grandes contracções e estava na data prevista para o parto. O meu médico assistente era o director da clínica e eu sentia-me apoiada, além disso, a Rita tinha também nascido ali e apesar de ter nascido de cesariana, tudo tinha corrido bem.
MARTA E MÃE ZUZU
O médico convenceu-se de que como era o segundo filho, eu teria um parto normal, então, devido a essa ideia do obstetra tudo se complicou. Comecei em trabalho de parto, com muitas dores,  mas a dilatação não se fazia, e o sofrimento começou a ser muito grande.
 De tempos a tempos, aparecia uma enfermeira e eu pedia-lhe que chamassem o médico, pois sentia que não aguentava por mais tempo, tantas dores. Passadas não sei quantas horas, para mim foram uma eternidade, comecei a descontrolar-me e penso mesmo que perdi os sentidos. Chamaram o médico e imediatamente fui para a sala de operações, onde me foi feita uma cesariana. Nasceu uma menina perfeita, mas já com sinais visíveis de sofrimento, por isso a bébé foi para a incubadora onde esteve cerca de doze horas. Só no dia seguinte vi a minha bebé.
1 ano de idade
Partilhei o quarto da Clínica com uma jovem parturiente inglesa que dera à luz um rapaz. Ela disse-me que se tivesse tido uma rapariga  chamar-se-ia Marta. Fiquei a pensar no nome, que me soou bastante bonito e imediatamente pensei que a minha bébé chamar-se-ia Marta.
Como gosto de nomes pequenos, logo ficou decidido, que este seria o seu nome.
A Marta sempre gostou muito do nome dela e às vezes, chamávamos-lhe de uma forma carinhosa  Martinha ou Martocas.
Foi uma bébé muito saudável e bem disposta. Quando fez um ano de idade já andava e dizia algumas palavras. O facto de conviver com crianças, um pouco mais velhas que ela, do prédio, da rua e com os primos, desenvolveu-a e tornou-a muito sociável.

10 ANOS - JÁ ÉS UMA MULHERZINHA....

Aniversário - 10 anos - dia 21 Janeiro de 1984 

A Marta nunca aceitou que "brincassem" com ela, e facilmente passava da boa disposição a amuada quando algumas palavras ditas por nós não lhe agradavam; nesses momentos eu chamava-lhe "Baleiruça" o que ainda mais agravava a situação, pois ela sabia que este termo se referia ao feitio sério e rigoroso do lado paterno, que raramente aceitam ou admitem uma "brincadeira".
A Marta teve um desenvolvimento físico e mental muito precoce. A passagem da infância para a adolescência foi feita muito rapidamente, o que originou que a Marta "sofresse" todos os estádios de desenvolvimento da adolescência duma forma bastante abrupta dando origem a grandes conflitos interiores, pois ela sentia-se já uma adolescente e nós ainda não estávamos mentalizados para essa mudança.
DECORAÇÃO DA SALA PARA A FESTA DE ANOS,
FEITA PELA MARTA
O seu corpo desenvolveu-se muito, bem como a sua postura perante a vida e perante os outros. Sempre foi muito responsável e conhecia bem os limites para as suas exigências.
Às vezes, quando eu não a deixava ir onde me pedia, chorava e dizia que esperava ansiosamente os 18 anos, pois com essa idade, ela poderia fazer tudo o que quisesse.
FESTA DOS 10 ANOS DA MARTA - O COMBÓIO
O facto de a Marta ter passado por todas estas transformações durante a adolescência duma maneira saudável, fizeram dela uma jovem adulta, consciente das suas responsabilidades familiares, sociais e profissionais (finalizar o seu curso, o mais rapidamente possível!).
Frequentava o 1º ano da Escola Preparatória de Massamá quando pela primeira vez foi menstruada. Sempre tivemos uma relação muito aberta e por isso quando chegou a casa disse-me o que lhe tinha acontecido. 


Nesse dia, 15 de Maio de 1984, escrevi no meu diário, este texto:
                               Marta
Chegaste a casa com um olhar diferente. Trazias os olhos brilhantes de expectativa e ao mesmo tempo de medo!
Hoje desabrochaste para a adolescência.
Como uma flor na Primavera que desabrocha, tu também te tornaste uma "mulherzinha".
MARTA, RITA E MÃE ZUZU
Hoje, no recreio da escola, tinhas sentido algo de anormal; um líquido quente que te sujava as cuecas!
Era a tua primeira menstruação! Com os teus 10 anos, começas a sentir o prazer de ser mulher!
Contudo és ainda uma criança!... Meiga, rebelde, exaltada, triste, alegre!
Eu senti nos meus 35 anos, como o tempo passa! Agora já tenho duas mulherzinhas em casa. Agora vais tu, a mais pequenina, começar a despontar e a abrir para a vida.
Sem me aperceber, vejo que as minhas filhas deixam de ser  "as minhas meninas" para se tornarem "as minhas mulherzinhas".
            Como ainda está perto o tempo em que eu te mudava a fralda! Como está ainda recente na minha memória a alegria que sentias quando te vias sem fraldas e gatinhavas por cima da cama, dando gargalhadas de alegria e de prazer!
Hoje é um dia especial para ti e para mim. A Primavera trouxe-te o presente de seres mulher.    
MARTA, AVÔ VITALINO  E AMIGUINHOS


MARTA, RITA, MÃE ZUZU E AVÓ AMÉLIA





domingo, 30 de janeiro de 2011

PRIMEIROS DIAS EM BEJA

MARTA - PRIMEIROS DIAS EM BEJA
Passado alguns dias, veio a autorização do Ministério da Educação para que se fosse matricular em Beja. 
A Marta ficou felicíssima. Logo no dia seguinte, foi no primeiro autocarro para Beja, afim de fazer a matrícula e procurar alojamento.
Era o sonho da Marta que começava a concretizar-se. Escreve no seu diário:
Hoje é dia 21.10.92
Estou muito longe de onde te costumo escrever, estou em Beja.
Pois é, consegui o que queria, entrar em Beja.
Estou numa casa só para estudantes, somos muitas raparigas, a Aires também cá está.
PRAXES - MARTA AO CENTRO
Ainda não fui às aulas porque tenho fugido da praxe, mas amanhã é o dia do caloiro, há um desfile e à noite há festa na discoteca.
Eu gosto do quarto, embora seja um pouco caro e muito frio, estou a pagar (20.000$00)
O Paulo   também cá está a tirar a carta.
Eu estou a gostar de Beja, é uma cidade simpática.
A escola é um pouco longe, mas com companhia, faz-se.
Bem agora vou fazer o meu jantar. Amanhã ou depois, conto-te como foi ser caloira.
Tchau!
Sinto-me um pouco sózinha, mas não é assim tão mau,
 dias melhores, dias piores ...
Escola Superior Agrária de Beja
Curso TIAA
Tuma 10            1º ano   nº57/92

ANIVERSÁRIO -20 ANOS

No dia 21 de Janeiro de 1994, quando a Marta fez 20 anos, resolvi organizar uma grande festa de aniversário, para festejarmos os seus anos com toda a família. Convidei a Paula, mãe do Paulo e o marido, o Zé Maria, para que estivessem connosco e assim nos ficássemos a conhecer. Foi uma festa muito bonita. Todos estávamos muito bem dispostos e a Marta adorou aquele dia. Convivemos, brincámos e petiscámos como sempre acontece nas festas familiares. A Marta teve muitas prendas e recebeu muitos telefonemas de parabéns; estava muito feliz!...
O ano de 1994 foi pródigo em acontecimentos importantes para a felicidade da Marta.
Escreveu na Agenda:
                   "21 Jan. 94
 Fiz 20 anos, fui logo de manhã para casa da mãe do Paulo para estudar um   pouco porque o Paulo tinha de ir trabalhar. Depois a Paula chegou fomos comprar o almoço para fazer um almoço especial. O Zé Maria veio almoçar connosco, mas o Paulo não pode aparecer.
A Paula ofereceu-me uma caneta, uma camisola de lã e um soutien, tudo muito bonito, ela foi incrível comigo - não só pelas prendas mas pela companhia e atenção que teve comigo.
Depois fomos à casa dos avós do Paulo que foram muito simpáticos e ofereceram-me uma camisola de lã também muito bonita.
Ás 7.30m eu e o Paulo fomos ter com os meus pais e a Rita, fomos jantar à Churrasqueira, foi muito agradável.
Fui para casa, recebi as prendas dos meus pais e dormi, para no dia seguinte acordar cedo para preparar a festa.
A minha mãe preparou uma festa muito agradável.
A minha mãe teve imenso trabalho, fez imensa coisa, eu pedi-lhe para me fazer um bolo de anos em forma de coelho para recordar os velhos tempos.
Deram-me muitas prendas e gostei de todas, mas a minha avó Amélia deu-me uma prenda que eu nunca vou esquecer, ofereceu-me o fio de ouro dela, eu adorei não pelo fio, mas pela intenção,  ainda mais sendo o dela!"
Marta

1º DIA DO ANO DE 1994

O ano de 1994 começara bem. Tudo corria dentro da normalidade.
                   No dia 2 de Janeiro de 94, a Marta escreve na sua agenda:
"2ºdia do ano de 94 com muito frio
Passei a Passagem do Ano em Tróia com o Paulo, a Patrícia e o Fernando, o namorado.
Passámos a passagem do ano muito bem, principalmente porque eu passei com a pessoa que amo e que quero sempre ao pé de mim.
No dia 1 de Janeiro 94, fomos almoçar ao Avelino, no Carvalhal;
comemos muito bem, comi choco frito que nunca tinha comido, e comi ameixão?  com caril que também estava óptimo.
No dia 1 à noite jogámos ao Pictionary Picante depois de um jantar feito por mim, pois eu trouxe umas coisas para " nos alimentarmos".
No dia 2 ou seja hoje, estou neste momento na praia com o Paulo, pois estamos à pesca, ainda não pescámos nada e está muito frio, eu estou gelada. Sendo o segundo dia do ano de 94, espero passar um ano mais quente que este dia."
Marta

BEJA , COM O PAULO

Nunca faltava às aulas. Mesmo debaixo de chuva ou de frio intenso, levantava-se muito cedo, para estar nas aulas às 8 horas da manhã. Sentia-se bem e andava muito bem disposta.
O Paulo estava também em Beja, viam-se todos os dias e estavam  felizes.
Dia 31 de Dezembro 1992
"Fim do Ano
Ano Novo Vida Nova, Ano Velho Vida Velha.
Tenho de tomar certas medidas na minha vida, pois já tenho idade para ser mais responsável e saber aquilo que quero e saber dos sacrifícios dos meus pais.
Espero encontrar uma casa nova para mim e para a Aires em Beja, em que não seja tanta confusão. Pois neste momento somos 11 raparigas numa casa sem muitas condições e torna-se muito desgastante para mim.
Espero que os meus pais sejam o mais feliz possível, assim como desejo que a minha irmã tenha tudo aquilo que deseja.
Espero que o meu namoro com o Paulo  continue e sejamos muito felizes.
Espero ser feliz no ano de 1993
Marta

Com todas estas mudanças na sua vida, os estudos também se ressentiram. O ambiente na casa não era o mais propício ao estudo e logo nas primeiras frequências os resultados não foram muito animadores. Não havia nenhum adulto na casa que vigiasse minimamente quem  visitava as raparigas e a meio do ano, começaram a receber muitos amigos, de tal forma que os serões eram passados a conversar e o estudo ficava para trás. A Marta era muito trabalhadora e procurava fazer todos os trabalhos que lhe eram pedidos, mas com o ambiente da casa que não era o ideal para o estudo e muitas vezes  sentia-se desmotivada, pois os professores eram muito exigentes e as  disciplinas muito trabalhosas. No primeiro ano chumbou a várias cadeiras, mas de qualquer modo transitou para o 2ºano.
A Marta a meio do ano lectivo 1992/1993, talvez em Março de 93, resolveu ir viver com o Paulo, alugaram a casa da Maria Albertina, na Rua Ferreira de Castro, nº26, 2º D. Foi uma decisão muito complicada, pois ambos assumiram a responsabilidade de uma união com todos os inconvenientes e responsabilidades que isso iria trazer. A Marta era muito adulta, muito responsável e aceitou esta nova situação de braços abertos e com grande optimismo. Nós achávamos que ela era muito nova para ter a responsabilidade de uma união e a responsabilidade de governar uma casa. Sabíamos que a mensalidade que lhe mandávamos não poderia ser muito aumentada e tínhamos receio que "as coisas" entre eles, não corressem bem. O Paulo teve alguns empregos e esforçou-se para que nada lhes faltasse, mas eu sei que algumas vezes a Marta se viu um pouco aflita para que o dinheiro chegasse até ao fim do mês. Para eles, o que importava era estarem juntos e viverem o seu grande amor, isso foi amplamente conseguido durante uns tempos, e eles foram muito felizes. A Marta foi feliz durante esses meses de vida em comum.